ESPORTE E MEMÓRIA
As reflexões que faço nesta coluna baseiam-se na influência que tenho da “sociologia do esporte”, um campo de estudo da sociologia largamente mencionado nos meios de comunicação.
Depois de minha família e da sociologia, o futebol é o terceiro assunto de maior destaque em meu vocabulário e o que me dá prazer em prosear com os amigos. Lembro-me dos saudosos tempos em que a comunidade urumajoense se concentrava á beira dos gramados de futebol da bucólica Urumajó pra ver, apreciar, festejar e se emocionar com o clássico local Santa Cruz e Servidores. Era um desfile de bons jogadores, humildes mais brilhantes com toda a dificuldade daquela época. Aqueles atletas conseguiam fazer do esporte um meio de atrair multidões. Infelizmente aqueles tempos não voltam mais. Posso até enumerar alguns jogadores daquela época de ouro do nosso futebol, Preto Santo, Patacão, Colombo, Pelado, Romualdo, Rudinho, Zezinho, Lampião, kassicama, Sururu, Vilomar... goleiros Néris, João, Americano, Toim, Roberto cachimbo, Chico do Araí entre outros que faziam chover e trovejar no campo do santa Cruz na entrada da cidade.
Era lá que aos domingos fazia-se uma procissão para ver o time do coração jogar, e mais, tudo isso acontecia pela singela paixão por um esporte que entrou em decadência depois que alguns dirigentes pararam de gastar o ultimo tostão que tinham em louvor ao esporte (Barreto, Bibio, Benezinho...), e outros que envelheceram e ainda os que por destino da vida se foram para outro estágio (Cafate, Zezinho Cazuza...). Lembro-me que nesses dias as bandeiras tremulavam, o povo se agitava com cada gol marcado pelo seu time e a galera alucinada festejava a noite inteira a vitória do seu esquadrão do coração. A rivalidade existia, mas nada que o tempo não resolvesse. Após a euforia tudo voltava a normalidade, até um novo encontro com dia e hora marcada e apostas feitas entre os “fanáticos” torcedores dessas agremiações.
Éramos acostumados a receber equipes do interior do Estado, uma motivação a mais aos atletas e torcedores da nossa paradisíaca cidade. Participávamos do Campeonato bragantino de futebol. Enchíamos caminhões, caçambas, carros particulares e até ambulância só para estar perto de nossos atletas errantes, desbravadores dos empecilhos que lhes acompanhavam (falta de equipamentos, suporte financeiro, patrocínio etc...).
Hoje os campeonatos perderam o seu brilho, os torcedores silenciaram e os atletas perderam a motivação de representar as equipes locais. Além disso, os dirigentes atuais, os patrocinadores e os incentivadores desistiram de lutar para resgatar a centralidade do futebol em nossa cidade.
A partir desse relato, faço o seguinte questionamento: o que podemos fazer para mudar essa lamentável situação? Acredito que precisamos de um projeto que realmente trate a prática esportiva como um mecanismo que aproxime a coletividade das representações simbólicas referentes ao esporte. E reconhecer este processo – de representação social – é fundamental para que possamos compreender a sociedade na qual estamos inseridos. Logo devemos revitalizar, concluir a construção da sede da liga municipal de futebol que se arrasta por um longo período sem que alguém se incomode com isso. Começar a pensar em ter o nosso próprio estádio que em meio ao mato, pede socorro as autoridades. Devemos também dar visibilidade as competições locais, criar campanhas para que as pessoas se associem aos seus clubes, num gesto de fidelidade e compromisso com as instituições esportivas. Temos que elencar prioridades para o esporte, planejar ações pertinentes a ele, realizar atividades que tenham significado educativos para os atletas, fazer investimento específico na área do desporto e credibilidade daqueles que promovem o espetáculo esportivo junto aos simpatizantes dessa modalidade. Como diz Helal, o futebol constitui-se num fato social, na medida em que “existe fora das consciências individuais de cada um, mas que se impõe como uma força capaz de penetrar intensamente no cotidiano de nossas vidas influenciando os nossos hábitos e costumes”
Em suma, necessitamos de pessoas que entendam o esporte como um operador cultural, prestando a ser “um veículo de construção e manutenção de representações de identidades”. Finalizo esta coluna com um fragmento de Carlos Drummond de Andrade, escrito em 1982 e republicado em 2002 na obra “Quando é dia de futebol” e que adaptei para este momento. “João ensaia os primeiros chutes como artilheiro, Antonio deixou de ser confiável ao abandonar o campo nos primeiros minutos do jogo, os fulanos e siclanos pré-relacionados parecem que embolarão o meio campo no afã de ocuparem a mesma área, que não dá para todos“. Afinal, somos urumajoenses e queremos como tal, desfrutar do potencial que temos e com qualidade social.
Autor José Rubens de Brito Filho, coordenador do “Projeto Fome de Bola” e professor da Rede Pública Municipal e Estadual de Ensino.