VIVA A MEMÓRIA ESPORTIVA!
Esta coluna trata da história do futsal urumajoense, desde 1986, iniciado com os jogos alusivos à Semana da Pátria na escola Galvão.
Esse ano não será um ano como outro qualquer para os amantes do futsal de nossa terra. O ano de 2011 é um ano ímpar de fato na história do esporte e deve ficar registrado na mentalidade coletiva do nosso povo. Há exatos 25 anos atrás na administração do falecido prefeito Esmaelino Braga do Nascimento se promovia a 1ª edição dos Jogos Alusivos a Semana da Pátria. Nessa época a modalidade de futebol de salão, passava a ser introduzida nas escolas do município que não eram muitas por sinal. O futebol de Salão, hoje futsal, era conhecido na época como o “esporte da bola pesada”, devido o “balão de couro” ser envolvido por uma placa enrijecida e um peso que incomodava os praticantes, principalmente aqueles que não tinham tênis para há pratica dessa modalidade. Comentava-se na época a grande incidência de entorses entre os atletas, quando do uso da bola, sem tênis apropriado. Sabia-se também de desmaios de pessoas ao serem atingida pela a “esfera de pedra”. Quem mais reclamava e sofria eram os goleiros, quando tinham que defender o chute de jogadores como Toninho, Jânio (Patacão), Augustinho (Patacão), Armandão, Nita, Romualdo que derrubavam até torcedores que ficavam no muro atrás da trave. Falando em goleiros; o que nunca saiu da minha cabeça eram as grandes defesas praticadas por grandes goleiros daquele período, Lico, Bonifácio, Gilberto Lima, Iranildo (Pão), Zequinha, Eduardo e João.
Nessa década a gente já fazia as nossas mandingas, colocava-se os nomes dos atletas adversários no congelador das antigas e poucas geladeiras que existiam por aqui. Amarrávamos as bananeiras do fundo do quintal para parar o ataque adversário, laçávamos as pernas da mesa com um nó bem apertado para diminuir a habilidade do melhor jogador do concorrente. Apelava-se até para “Pai de Santo”, no dia de jogo os mais supersticiosos desconfiavam de tudo, evitavam até as visitas de supostos espiões da equipe adversária. No dia de clássicos a cidade ficava sob tensão e burburinhos de possíveis trapaceiros. Os jogadores eram avisados para evitarem contatos com os “inimigos”, no bom sentido. Durante o jogo os atletas transpiravam gotas de suor com fragância de alho que se usava muito, para afastar os “maus olhados como dizia os antigos”.
Os juízes da partida final eram enclausurados em casas de particulares para que estes não viessem receber propinas de patrocinadores dos clubes, visto que os mediadores do espetáculo eram da cidade de Bragança. Após a semana dos jogos era muito fácil perceber árvores de “pião roxo”, aparecerem totalmente “peladas” e plantas medicinais como “arruda”, “comigo ninguém pode”, sumirem dos quintas das antigas residências. Além disso, se usava garrafas com água benzida da Igreja matriz, tudo isso só para ser o campeão dos jogos da Semana da Pátria. Ainda, lembro da música tema “Ilariê” da Rainha dos baixinhos ecoar em toda cidade, antes, durante e depois das partidas do Olariense. Festejava-se antecipadamente a chegada a final, características de torcedores convictos no desempenho de seus atletas. A quadra escura para os padrões de hoje, ficava repleta de torcedores, incentivadores e raros patrocinadores. Um detalhe que quero pontuar, era a inexistência de alambrados nas quadras tanto da escola Galvão, quanto da escola Rosa Athayde o que favorecia uma maior proximidade dos torcedores de seus Clubes. Esse calor da torcida tornava as partidas mais alucinantes, emocionantes e festivas.
Em meados de 1986, lembro que a quadra da Escola Galvão foi construída às pressas para a realização dos jogos. As condições estruturais eram precárias, as instalações elétricas limitadas e o posicionamento dos postes para receber a fiação e posteriormente as lâmpadas comuns, foram todos improvisados. Mas uma coisa é certa, foi neste palco esportivo que desfilaram os primeiros craques de futsal de nossa terra, Peleja, Cacau, Hélio, Sérgio, Zeca, Rirrí, Filho, Paulo Cunha entre outros que não me recordo.
Na década de 80, houve uma intensa migração dos atletas de Futebol de Campo para o Futsal, entre eles posso citar Colombo, Romualdo, Rirri, Zezinho, Lampeão, Cerezo, Armandão, Zeca Fonseca, Zé Wilson etc. Esses primeiros contatos com a nova modalidade, produziu uma intensa euforia na juventude daquela saudosa época e cada ano o cenários dos jogos se transformavam aliando organização do espaço de jogo às regras da modalidade. Nesse período os atletas se empenhavam, se dedicavam ao maior e mais importante espetáculo esportivo de nossa terra.
Na década de 90, houve um incentivo maior para a modalidade, passamos a contar com uma nova quadra a da Escola Rosa Athayde. Nessa nova fase, já existia uma padronização dos uniformes identificando os tradicionais clubes dessa época Olariense, Sespa, Municipalista, Geração 2000, Cruzeiro, Ascan, Farsami, Siri Sports, Nacional, Casa Velha, Mengove, Acec e União. Na transição da década de 80 a década de 90, o Clube União, passou a representar o futsal urumajoense no campeonato bragantino e com mando de jogo em Augusto Corrêa. Costumo dizer que o futsal urumajoense passou a ser competitivo a partir dessa década por contar com inúmeros jogadores de Belém e de Bragança, que mostravam o seu potencial nas quadras da “cidade dos coqueiros”. Entretanto, o nosso potencial esportivo não era ainda suficiente para vencermos as competições externas, devido à estrutura precária fornecida aos nossos atletas, isto é, equipamentos, transportes, preparação física e técnica, medicamentos para contraturas etc. Faz-se necessário elencar os maiores vencedores da Semana da Pátria: Geração 2000 (Títulos – 1994, 1996, 1999, 2001, 2002, 2003, 2004), Copo Cheio (Títulos – 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011), Olariense (Títulos – 1987,1988 e 1991) e SESPA (Títulos – 1986, 1993).
A partir de 2000, tivemos contatos com grandes jogadores de Bragança nessa modalidade: Betão, Cocoia, Cleber Ocimar, Xandê, Cássio Blanco, Cléo Elí, Coelho, Ronaldo, Jefferson, Adriano entre outros. Considero aqui o salto de qualidade do nosso futsal, devido o intercâmbio promovido pelo Departamento de Desportos da época em possibilitar a presença de dois jogadores da cidade vizinha na quadra de jogo. O futsal urumajoense ganhou um novo formato, criou o seu próprio estilo de jogo e passou a ter maior visibilidade ganhando a centralidade que até então, era do futebol de campo. A materialização de tal afirmação concretiza-se na incidência de grandes levas de crianças que anualmente procuram os projetos de esporte que oferecem o futsal como complemento de suas atividades educativas. Hoje crianças e adolescentes do nosso município têm a oportunidade de se vislumbrarem com a dinâmica, versatilidade e mecânica das jogadas do futsal. Além disso, já o reconhecem como o esporte que mais promoveu a imagem do nosso município no Pará.
É necessário esclarecer que ao longo desses 14 anos foram construídas quadras poliesportivas em diversas localidades do nosso município, tanto na administração do ex-prefeito Milton Lobão, quanto do atual prefeito Amós Bezerra. Digo mais, acredito que o prefeito atual é sem dúvida o que mais patrocinou e incentivou financeiramente o esporte desse município. Mas, destaco a fragilidade da rede emancipadora, a ausência de programas esportivos que formem cidadãos e atletas comprometidos com a imagem do nosso lugar, com a simbologia do esporte como aglutinador de valores morais e éticos. Se em todas as localidades que existem quadras tivessem programas esportivos direcionados as crianças e adolescentes, como é o caso do “Projeto Fome de Bola: esporte e cidadania”, “Clube Hicso”, em um curto espaço de tempo dominaríamos a região bragantina. Comungo da ideia do Antropólogo Roberto Da Matta de que “o futebol é um veículo básico para a socialização e um complexo sistema para a comunicação de valores essenciais em uma sociedade altamente segmentada”. Para que se elimine essa segmentação, precisamos criar um fundo exclusivo para o esporte, que fomente as atividades desportivas e recreativas mediadas por um plano de metas que relacione de forma umbilical o esporte, a escola e a família.
A projeção feita acima se confirma no desempenho do nosso futsal nos últimos oito anos, onde uma geração de jogadores nos proporcionaram as mais importantes conquistas dessa última década. Para mim a melhor geração de todos os tempos se materializa na participação de jogadores como Maurício(Tico), Beto Taíra que é maranhense, mas que adotou Urumajó como sua terra, Marcos Lima (Sial), Antônio Maria (tonico), Antonio Elias(Bituca), Rômulo, Paulo Paixão(Pintado), Anderson, Yuri, Charles, Naldo, João, Raimundo Nonato (Rato), Lennon, Moisés, Ivanildo (tabajara) e os mais novos como Andrey, Tarcísio, Fábio, Joniel, Renilson, Elcinho, Nenêm, Biel e Murilo.
A comunidade esportiva do nosso município deve saber das conquistas dessa geração: de três participações no Campeonato Bragantino de Futsal, conquistamos o Campeonato de 2008, 2009 e o Vice-Campeonato de 2010, que se não fosse por um erro de estratégia teríamos conquistado o Tricampeonato. Vale ressaltar, que o nosso selecionado enfrentaram grandes jogadores da Capital do Estado, experientes na arte de jogar futsal, dentre eles estão Biolay, Luizão, Chico, Dieguinho, Jotinha, Célio, Piquete, Formiga, e outros. Das cinco edições dos Jogos Aberto do Pará, conquistamos duas vezes o primeiro lugar, temos dois vice-campeonatos e um terceiro lugar. Hoje temos a melhor seleção da região bragantina desses Jogos. Nos JEP’S (Jogos estudantis), temos uma conquista a de 2009 e três vice-campeonatos 1998, 2010 e 2011. Após a competição de 2011, Renilson e Elton foram convidados a fazerem testes no São Raimundo de Santarém. Em 2008 participamos discretamente do Campeonato Paraense de Futsal e recentemente conseguimos na primeira participação do Intermunicipal o posto de terceira melhor seleção do Pará e só não chegamos mais longe devido a problemas extra-quadra que prejudicou o desempenho da seleção no jogo da Semifinal contra Melgaço.
Com base no contexto acima, a cada ano os nossos jogadores são pretendidos e requisitados a defender Clubes de Bragança que pagam a eles de 500 a 1.000 reais por uma semana de jogos. Outros receberam convites de Clubes como Remo e ESMAC para fazerem parte de seu selecionado, como foi o caso de Elcinho e Renilson. Ambos vice-campeões Paraense pela Equipe do Rosário Centro de Capanema e convocados para a seleção paraense de futsal categoria Sub-17. Vale ressaltar, que somente Elcinho permanece na ESMAC e essa instituição de gabarito regional lhe garantiu o término de seu Ensino Médio e posteriormente a sua graduação em Educação Física. Recentemente Elcinho, sagrou-se Campeão Brasileiro Sub-17 pelo selecionado Paraense em Jogos disputados em Belém do Pará e participou da Taça Brasil de Futsal em sua categoria em Aracaju-Sergipe. Essa conquista pessoal do jovem atleta deve-se ao empenho de seus pais Élcio e Roseli que se despuseram a acompanhá-lo em uma carreira difícil que é a de jogador de futsal. Tudo isso é motivo de orgulho para os amantes desse esporte. Apenas precisamos entender melhor esse cenário e não confundir problemas de ordem pessoal com questões específicas pertinentes ao esporte. Esse tipo de atitude só empobrece as relações sócio-desportivas e evidência as limitações daqueles que conduzem o futsal do nosso município. Alerto, precisamos trazer para Augusto Corrêa pelo menos uma edição dos JEP’S e dos JOGOS ABERTOS DO PARÁ para que as crianças, os adolescentes e os jovens se sintam participantes do espetáculo esportivo, pois acredito que o craque se produz em casa e essa é mais uma função da escola. Concluo essa crônica com o seguinte fragmento de Marcos Guterman, jornalista e historiador. “O futebol é pura construção histórica, gerado como parte indissociável dos desdobramentos da vida política e econômica do Brasil; se lido corretamente, consegue explicar nosso país”. Por esse mesmo prisma podemos entender a nossa história e é por isso que devemos elencar políticas de esporte e lazer que satisfaça os anseios de todos os seguimentos que compõem a sociedade urumajoense mais de forma eficiente e eficaz. Essa implementação deve levar em conta as particularidades dos sujeitos envolvidos, isto é, seus valores, seus símbolos, suas crenças e suas condições afetivas. Por fim, precisamos reinventar a nossa paixão pelo futsal, na tentativa de compreender e de valorizar a sua importância simbólica, histórica e cultural. Discutir o futsal e outras modalidades e as relações que elas suscitam, é pensar a sociedade urumajoense. Afinal, somos e queremos ser! O país do futebol. Eis o nosso drama, para relembrar o antropólogo Roberto Da Matta.
Crônica escrita pelo sociólogo e coordenador do Projeto Fome de Bola: esporte e cidadania José Rubens de Brito Filho.