A noite do dia 06 de setembro de 2011 marcou o retorno dos grandes espetáculos, a competitividade estava em alta, à rivalidade existia mais de forma saudável e ordeira, o equilíbrio emocional foi um ponto positivo e a genialidade se fez presente no gol do guarda meta Darley. Essa final deixou os amantes do futsal com a impressão de que tudo poderia acontecer, de que o jogo seria decidido no detalhe, em uma falha individual ou em uma jogada de mestre de alguns de nossos melhores jogadores. Os torcedores eufóricos e barulhentos voltaram outra vez a fazer suas apostas, sabiam que o equilíbrio seria a tônica do jogo. Essa análise se configurou em verdade. No duelo entre Davi e Golias as estratégias foram montadas, as peças foram mexidas de um lado para o outro no tabuleiro de jogo. Golias mais experiente pressionou Davi com as armas que tinha e conseguiu abrir o placar no primeiro tempo e ampliá-lo no mesmo período, jogou tudo que podia nos primeiros 20 minutos, sob o comando do nosso melhor atleta e mais completo jogador de futsal da atualidade em nosso município Maurício (Tico), um atleta exemplar, que corre feito um menino mesmo com seus 34 anos e ainda existem alguns desavisados que insiste em dizer que ele está velho para o esporte, o que não é verdade. O jogo seguiu para o segundo período e Golias passou a administrar o jogo. Davi com um time reduzido passou a pressionar e se organizar melhor chegando a seu primeiro gol, a partir daí o jogo ficou equilibrado e possivelmente Davi chegaria ao empate se não fosse um erro de substituição do goleiro linha que permitiu que Darley o goleiro adversário fizesse um belíssimo gol que liquidou a partida. Davi pressionou e encurralou Golias no seu próprio campo mais não conseguiu diminuir o placar. A impressão que se teve foi de um jogo bem jogado que poderia terminar com um placar igual ou um três a dois, seria um final justo. Ao término do jogo ficou impressão de que após cinco anos o equilíbrio voltou e a chama foi reacendida de forma inusitada, isto é, pelos mesmos jogadores e dirigentes que outrora foram afastados da seleção de Augusto Corrêa por se posicionarem de forma contrária as idéias daqueles gestam o futsal no município. Agora que a magia está de volta é bom que as equipes tradicionais retornem também ao tabuleiro de jogo, ASCAM, G2000, OLARIENSE, MUNICIPALISTA, BN, SIRI SPORTS, SESPA etc. Davi não conseguiu como na história bíblica vencer Golias, mas deu exemplo de partilha, de empenho e dedicação, visto que, com um time limitado e reduzido a apenas dois jogadores competitivos no banco conseguiu de forma impressionante chegar à final da semana da pátria. Essa posição jamais foi cogitada pelos torcedores e nem favoritos éramos. Depois de tanto tempo militando o futsal e ausente cinco anos da semana da pátria, sinto-me feliz em desafiar as regras, brincar com o imponderável e mostrar para o público que todos os jogadores amadores se bem motivados realizam coisas impressionantes, mais uma vez o desafio me chamou e eu não tive medo, pelo contrário abracei a causa e dei o melhor de mim. Quem saiu vencedor nessa noite foi o público que lotou o ginásio e percebeu que a competitividade está de volta e que os grandes clássicos voltaram a acontecer para a felicidade daqueles que fizeram a história desses longos vinte e cinco anos da modalidade. Em fim precisamos fazer algumas mudanças no regulamento dos jogos. A partida final deverá ser disputada em 40 minutos cronometrados e com prorrogação e penalidades se for necessário. Não obstante, reduzir o número de clubes da categoria adulto na competição e promover um ranqueamento das equipes para que se possa manter o nível competitivo dos jogos da semana da Pátria, por um longo período de tempo. Todas essas mudanças devem passar pela triagem dos próprios atores dos jogos, para não levantar suspeitas de favorecimento de algumas equipes tradicionais do município. Se essas mudanças se efetivarem de fato o espetáculo ganhará a dimensão que merece e os torcedores serão presenteado com grandes duelos dentro de quadra. Agora que a magia voltou. É hora de montar e treinar a sua equipe para que se mantenha a chama competitiva dos grandes clássicos. Como diz Wilson Carlos Santana, “quero sensibilizar meus alunos a serem treinadores de gente, a gostarem mais de gente do que de estatísticas, mais de gente do que de preparação física, técnica, tática, artigos científicos. Anseio que eles não percam a oportunidade singular de, ao ensinarem esporte, praticarem educação.”
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
VIVA A MEMÓRIA ESPORTIVA!
VIVA A MEMÓRIA ESPORTIVA!
Esta coluna trata da história do futsal urumajoense, desde 1986, iniciado com os jogos alusivos à Semana da Pátria na escola Galvão.
Esse ano não será um ano como outro qualquer para os amantes do futsal de nossa terra. O ano de 2011 é um ano ímpar de fato na história do esporte e deve ficar registrado na mentalidade coletiva do nosso povo. Há exatos 25 anos atrás na administração do falecido prefeito Esmaelino Braga do Nascimento se promovia a 1ª edição dos Jogos Alusivos a Semana da Pátria. Nessa época a modalidade de futebol de salão, passava a ser introduzida nas escolas do município que não eram muitas por sinal. O futebol de Salão, hoje futsal, era conhecido na época como o “esporte da bola pesada”, devido o “balão de couro” ser envolvido por uma placa enrijecida e um peso que incomodava os praticantes, principalmente aqueles que não tinham tênis para há pratica dessa modalidade. Comentava-se na época a grande incidência de entorses entre os atletas, quando do uso da bola, sem tênis apropriado. Sabia-se também de desmaios de pessoas ao serem atingida pela a “esfera de pedra”. Quem mais reclamava e sofria eram os goleiros, quando tinham que defender o chute de jogadores como Toninho, Jânio (Patacão), Augustinho (Patacão), Armandão, Nita, Romualdo que derrubavam até torcedores que ficavam no muro atrás da trave. Falando em goleiros; o que nunca saiu da minha cabeça eram as grandes defesas praticadas por grandes goleiros daquele período, Lico, Bonifácio, Gilberto Lima, Iranildo (Pão), Zequinha, Eduardo e João.
Nessa década a gente já fazia as nossas mandingas, colocava-se os nomes dos atletas adversários no congelador das antigas e poucas geladeiras que existiam por aqui. Amarrávamos as bananeiras do fundo do quintal para parar o ataque adversário, laçávamos as pernas da mesa com um nó bem apertado para diminuir a habilidade do melhor jogador do concorrente. Apelava-se até para “Pai de Santo”, no dia de jogo os mais supersticiosos desconfiavam de tudo, evitavam até as visitas de supostos espiões da equipe adversária. No dia de clássicos a cidade ficava sob tensão e burburinhos de possíveis trapaceiros. Os jogadores eram avisados para evitarem contatos com os “inimigos”, no bom sentido. Durante o jogo os atletas transpiravam gotas de suor com fragância de alho que se usava muito, para afastar os “maus olhados como dizia os antigos”.
Os juízes da partida final eram enclausurados em casas de particulares para que estes não viessem receber propinas de patrocinadores dos clubes, visto que os mediadores do espetáculo eram da cidade de Bragança. Após a semana dos jogos era muito fácil perceber árvores de “pião roxo”, aparecerem totalmente “peladas” e plantas medicinais como “arruda”, “comigo ninguém pode”, sumirem dos quintas das antigas residências. Além disso, se usava garrafas com água benzida da Igreja matriz, tudo isso só para ser o campeão dos jogos da Semana da Pátria. Ainda, lembro da música tema “Ilariê” da Rainha dos baixinhos ecoar em toda cidade, antes, durante e depois das partidas do Olariense. Festejava-se antecipadamente a chegada a final, características de torcedores convictos no desempenho de seus atletas. A quadra escura para os padrões de hoje, ficava repleta de torcedores, incentivadores e raros patrocinadores. Um detalhe que quero pontuar, era a inexistência de alambrados nas quadras tanto da escola Galvão, quanto da escola Rosa Athayde o que favorecia uma maior proximidade dos torcedores de seus Clubes. Esse calor da torcida tornava as partidas mais alucinantes, emocionantes e festivas.
Em meados de 1986, lembro que a quadra da Escola Galvão foi construída às pressas para a realização dos jogos. As condições estruturais eram precárias, as instalações elétricas limitadas e o posicionamento dos postes para receber a fiação e posteriormente as lâmpadas comuns, foram todos improvisados. Mas uma coisa é certa, foi neste palco esportivo que desfilaram os primeiros craques de futsal de nossa terra, Peleja, Cacau, Hélio, Sérgio, Zeca, Rirrí, Filho, Paulo Cunha entre outros que não me recordo.
Na década de 80, houve uma intensa migração dos atletas de Futebol de Campo para o Futsal, entre eles posso citar Colombo, Romualdo, Rirri, Zezinho, Lampeão, Cerezo, Armandão, Zeca Fonseca, Zé Wilson etc. Esses primeiros contatos com a nova modalidade, produziu uma intensa euforia na juventude daquela saudosa época e cada ano o cenários dos jogos se transformavam aliando organização do espaço de jogo às regras da modalidade. Nesse período os atletas se empenhavam, se dedicavam ao maior e mais importante espetáculo esportivo de nossa terra.
Na década de 90, houve um incentivo maior para a modalidade, passamos a contar com uma nova quadra a da Escola Rosa Athayde. Nessa nova fase, já existia uma padronização dos uniformes identificando os tradicionais clubes dessa época Olariense, Sespa, Municipalista, Geração 2000, Cruzeiro, Ascan, Farsami, Siri Sports, Nacional, Casa Velha, Mengove, Acec e União. Na transição da década de 80 a década de 90, o Clube União, passou a representar o futsal urumajoense no campeonato bragantino e com mando de jogo em Augusto Corrêa. Costumo dizer que o futsal urumajoense passou a ser competitivo a partir dessa década por contar com inúmeros jogadores de Belém e de Bragança, que mostravam o seu potencial nas quadras da “cidade dos coqueiros”. Entretanto, o nosso potencial esportivo não era ainda suficiente para vencermos as competições externas, devido à estrutura precária fornecida aos nossos atletas, isto é, equipamentos, transportes, preparação física e técnica, medicamentos para contraturas etc. Faz-se necessário elencar os maiores vencedores da Semana da Pátria: Geração 2000 (Títulos – 1994, 1996, 1999, 2001, 2002, 2003, 2004), Copo Cheio (Títulos – 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011), Olariense (Títulos – 1987,1988 e 1991) e SESPA (Títulos – 1986, 1993).
A partir de 2000, tivemos contatos com grandes jogadores de Bragança nessa modalidade: Betão, Cocoia, Cleber Ocimar, Xandê, Cássio Blanco, Cléo Elí, Coelho, Ronaldo, Jefferson, Adriano entre outros. Considero aqui o salto de qualidade do nosso futsal, devido o intercâmbio promovido pelo Departamento de Desportos da época em possibilitar a presença de dois jogadores da cidade vizinha na quadra de jogo. O futsal urumajoense ganhou um novo formato, criou o seu próprio estilo de jogo e passou a ter maior visibilidade ganhando a centralidade que até então, era do futebol de campo. A materialização de tal afirmação concretiza-se na incidência de grandes levas de crianças que anualmente procuram os projetos de esporte que oferecem o futsal como complemento de suas atividades educativas. Hoje crianças e adolescentes do nosso município têm a oportunidade de se vislumbrarem com a dinâmica, versatilidade e mecânica das jogadas do futsal. Além disso, já o reconhecem como o esporte que mais promoveu a imagem do nosso município no Pará.
É necessário esclarecer que ao longo desses 14 anos foram construídas quadras poliesportivas em diversas localidades do nosso município, tanto na administração do ex-prefeito Milton Lobão, quanto do atual prefeito Amós Bezerra. Digo mais, acredito que o prefeito atual é sem dúvida o que mais patrocinou e incentivou financeiramente o esporte desse município. Mas, destaco a fragilidade da rede emancipadora, a ausência de programas esportivos que formem cidadãos e atletas comprometidos com a imagem do nosso lugar, com a simbologia do esporte como aglutinador de valores morais e éticos. Se em todas as localidades que existem quadras tivessem programas esportivos direcionados as crianças e adolescentes, como é o caso do “Projeto Fome de Bola: esporte e cidadania”, “Clube Hicso”, em um curto espaço de tempo dominaríamos a região bragantina. Comungo da ideia do Antropólogo Roberto Da Matta de que “o futebol é um veículo básico para a socialização e um complexo sistema para a comunicação de valores essenciais em uma sociedade altamente segmentada”. Para que se elimine essa segmentação, precisamos criar um fundo exclusivo para o esporte, que fomente as atividades desportivas e recreativas mediadas por um plano de metas que relacione de forma umbilical o esporte, a escola e a família.
A projeção feita acima se confirma no desempenho do nosso futsal nos últimos oito anos, onde uma geração de jogadores nos proporcionaram as mais importantes conquistas dessa última década. Para mim a melhor geração de todos os tempos se materializa na participação de jogadores como Maurício(Tico), Beto Taíra que é maranhense, mas que adotou Urumajó como sua terra, Marcos Lima (Sial), Antônio Maria (tonico), Antonio Elias(Bituca), Rômulo, Paulo Paixão(Pintado), Anderson, Yuri, Charles, Naldo, João, Raimundo Nonato (Rato), Lennon, Moisés, Ivanildo (tabajara) e os mais novos como Andrey, Tarcísio, Fábio, Joniel, Renilson, Elcinho, Nenêm, Biel e Murilo.
A comunidade esportiva do nosso município deve saber das conquistas dessa geração: de três participações no Campeonato Bragantino de Futsal, conquistamos o Campeonato de 2008, 2009 e o Vice-Campeonato de 2010, que se não fosse por um erro de estratégia teríamos conquistado o Tricampeonato. Vale ressaltar, que o nosso selecionado enfrentaram grandes jogadores da Capital do Estado, experientes na arte de jogar futsal, dentre eles estão Biolay, Luizão, Chico, Dieguinho, Jotinha, Célio, Piquete, Formiga, e outros. Das cinco edições dos Jogos Aberto do Pará, conquistamos duas vezes o primeiro lugar, temos dois vice-campeonatos e um terceiro lugar. Hoje temos a melhor seleção da região bragantina desses Jogos. Nos JEP’S (Jogos estudantis), temos uma conquista a de 2009 e três vice-campeonatos 1998, 2010 e 2011. Após a competição de 2011, Renilson e Elton foram convidados a fazerem testes no São Raimundo de Santarém. Em 2008 participamos discretamente do Campeonato Paraense de Futsal e recentemente conseguimos na primeira participação do Intermunicipal o posto de terceira melhor seleção do Pará e só não chegamos mais longe devido a problemas extra-quadra que prejudicou o desempenho da seleção no jogo da Semifinal contra Melgaço.
Com base no contexto acima, a cada ano os nossos jogadores são pretendidos e requisitados a defender Clubes de Bragança que pagam a eles de 500 a 1.000 reais por uma semana de jogos. Outros receberam convites de Clubes como Remo e ESMAC para fazerem parte de seu selecionado, como foi o caso de Elcinho e Renilson. Ambos vice-campeões Paraense pela Equipe do Rosário Centro de Capanema e convocados para a seleção paraense de futsal categoria Sub-17. Vale ressaltar, que somente Elcinho permanece na ESMAC e essa instituição de gabarito regional lhe garantiu o término de seu Ensino Médio e posteriormente a sua graduação em Educação Física. Recentemente Elcinho, sagrou-se Campeão Brasileiro Sub-17 pelo selecionado Paraense em Jogos disputados em Belém do Pará e participou da Taça Brasil de Futsal em sua categoria em Aracaju-Sergipe. Essa conquista pessoal do jovem atleta deve-se ao empenho de seus pais Élcio e Roseli que se despuseram a acompanhá-lo em uma carreira difícil que é a de jogador de futsal. Tudo isso é motivo de orgulho para os amantes desse esporte. Apenas precisamos entender melhor esse cenário e não confundir problemas de ordem pessoal com questões específicas pertinentes ao esporte. Esse tipo de atitude só empobrece as relações sócio-desportivas e evidência as limitações daqueles que conduzem o futsal do nosso município. Alerto, precisamos trazer para Augusto Corrêa pelo menos uma edição dos JEP’S e dos JOGOS ABERTOS DO PARÁ para que as crianças, os adolescentes e os jovens se sintam participantes do espetáculo esportivo, pois acredito que o craque se produz em casa e essa é mais uma função da escola. Concluo essa crônica com o seguinte fragmento de Marcos Guterman, jornalista e historiador. “O futebol é pura construção histórica, gerado como parte indissociável dos desdobramentos da vida política e econômica do Brasil; se lido corretamente, consegue explicar nosso país”. Por esse mesmo prisma podemos entender a nossa história e é por isso que devemos elencar políticas de esporte e lazer que satisfaça os anseios de todos os seguimentos que compõem a sociedade urumajoense mais de forma eficiente e eficaz. Essa implementação deve levar em conta as particularidades dos sujeitos envolvidos, isto é, seus valores, seus símbolos, suas crenças e suas condições afetivas. Por fim, precisamos reinventar a nossa paixão pelo futsal, na tentativa de compreender e de valorizar a sua importância simbólica, histórica e cultural. Discutir o futsal e outras modalidades e as relações que elas suscitam, é pensar a sociedade urumajoense. Afinal, somos e queremos ser! O país do futebol. Eis o nosso drama, para relembrar o antropólogo Roberto Da Matta.
domingo, 2 de janeiro de 2011
ARTIGO IV
Publicado em 04/07/2009 por medinafutebol
A falta de indignação impede modificações
É comum o futebol ser entendido como um fenômeno que favorece o processo educacional, cultural e de conquista da saúde de um povo. Contrapondo a este entendimento podemos observar também que ele pode ser expressão de todas as mazelas presentes na sociedade.
Este esporte pode ser privilegiado instrumento de educação, mas pode ser também exemplo de mau comportamento. Pode ser expressão de cultura, como pode ser a mais clara representação de violência, agressividade e egoísmo. Pode significar caminho à saúde, como também uma forma de utilização de drogas em busca indiscriminada da alta performance.
O esporte, e em particular o futebol, não é bom nem ruim, por si só. Ele apenas representa aquilo que somos com nossas virtudes e defeitos.
Recentemente temos visto manifestações que comprovam este paradoxo representado pelo futebol. O racismo é um exemplo bem acabado disso.
Seja no Brasil, na Arábia Saudita, ou em países considerados mais desenvolvidos como Espanha, Alemanha e Itália as manifestações racistas são observadas com bastante frequência, mesmo em pleno século 21.
Tais fatos, indiscutivelmente intoleráveis, sempre que visiveis são denunciados pela imprensa, pelo menos nos países mais livres, e provocam reações que permitem reflexões, muitas vezes, bastante instrutivas.
Por outro lado, entretanto, na maioria das vezes estas manifestações racistas são expressas em círculos tão fechados e restritos que não possibilitam o debate, a crítica e o repúdio no sentido de sua superação.
Fica apenas aquele sentimento de impotência e até de certa conivência na medida em que entendemos algumas dessas colocações e atitudes como simples brincadeiras inofensivas e que não devem ser levadas muito a sério.
E uma vez que tais fatos não sejam capazes de provocar indignação, também não poderão provocar qualquer modificação neste estado de coisas.
João Paulo S. Medina
ARTIGO XIII
Publicado em 09/05/2009 por medinafutebol
Em busca de uma abordagem crítica
Em um outro texto publicado neste blog (*) comentei que o futebol nem sempre é sinônimo de saúde, como muitos imaginam. Sempre que abordo este assunto, as pessoas parecem ficar surpresas com este meu ponto de vista sobre o futebol, esporte que, sem dúvida, é uma das maiores manifestações culturais do século 20 e nada indica que não será assim, também neste século 21.
Muitas pessoas me questionam. “Medina como você, sendo professor e trabalhando no futebol há tanto tempo, pode falar mal do futebol?”
Penso que ter um olhar crítico sobre o futebol não significa necessariamente falar mal dele. Pelo contrário, toda visão crítica pode contribuir mais para a valorização das práticas esportivas, do que uma visão ufanista ou de senso comum.
Defendo que precisamos ter a capacidade para aproveitar o enorme potencial do futebol, para realmente assegurar a promoção da saúde, educação e cultura.
Se o esporte em geral, e o futebol em particular, fosse algo bom por si só, que dispensasse a necessária intervenção competente, positiva e pró-ativa de seus agentes, não veríamos à todo momento exemplos de atletas envolvidos em drogas, atos de violência e corrupção que se repetem dentro e fora dos campos.
Cabe, portanto, àqueles que são os atores responsáveis pelas práticas esportivas, ou seja, treinadores, atletas, líderes comunitários, dirigentes, terem sempre em mente os valores que devem permear o esporte: solidariedade, cooperação, busca de superação dos limites, constante aperfeiçoamento, o espírito democrático, respeito aos nossos oponentes etc.
Com uma visão crítica que dê mais clareza quanto à forma em que as relações sociais se dão no interior das atividades lúdicas, educativas e competitivas, talvez, possamos realmente entender o esporte, e em especial o futebol, como um privilegiado instrumento que auxilia o desenvolvimento do ser humano de uma forma geral.
(*) Futebol não é sinônimo de educação, saúde ou cultura
João Paulo S. Medina
ARTIGO XII
Publicado em 25/04/2009 por medinafutebol
Uma reflexão sobre os valores dos “selvagens” e dos “civilizados”
Acompanhando os acontecimentos no mundo e no Brasil, imagino como poderíamos medir o grau de desenvolvimento que a humanidade atingiu já em pleno século 21. E quando falo em desenvolvimento, refiro-me não apenas ao processo de acumulação de riquezas materiais, mas às possibilidades de ascensão das pessoas de uma forma ampla, nos mais variados aspectos.Somos surpreendidos a cada instante com escândalos de toda ordem, que nos fazem questionar se vivemos, realmente, numa sociedade civilizada.
Para aumentar essas dúvidas basta vermos, também, o que acontece no mundo do futebol, onde a busca pela vitória, vantagens pessoais e institucionais, muitas vezes, atropelam qualquer apelo que realmente justifique tudo aquilo que entendemos como civilizado.
Esta reflexão me trás à mente uma experiência muito interessante, contada há anos por um antropólogo, sobre o comportamento de um povo selvagem. Disse ele que certa vez visitou uma tribo no Mato Grosso, que nunca teve contato com a cultura civilizada, a fim de estudá-la.
Ao pesquisar aquela população indígena, buscando entender seus relacionamentos, ele e seu grupo aproveitaram para ensinar algumas práticas de nossa cultura, entre elas o futebol. Os índios gostaram tanto do jogo que começaram a praticá-lo diariamente.
Mas um fato chamou muito a atenção dos antropólogos. Como os índios aprenderam que o grande objetivo da competição era a marcação do gol, quando isto acontecia, de um lado ou de outro, os dois times comemoravam entre si, indistintamente. Afinal alguém tinha conseguido atingir a meta e, portanto, cabia uma celebração coletiva que dispensava o conceito de vencedores e perdedores.
Talvez este modelo “selvagem” de ver o futebol não seja o ideal a ser seguido por nós “civilizados”, mas com certeza pode nos inspirar a colocar alguns limites nas nossas ambições, muitas vezes exageradas, para não dizer doentias.
João Paulo S. Medina
sábado, 1 de janeiro de 2011
ARTIGO XI
Diversidade e criatividade
Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
Criatividade tem a ver com inventividade. Seria, então, a capacidade que se tem de inventar frente a um problema; de dar uma resposta inesperada e incomum. O esporte é muito exigente quanto a isso. Sobretudo os coletivos. Há muitas situações-problema a enfrentar. Não ser criativo, portanto, constituir-se-á, sempre, num empecilho para a excelência no jogar. O fato é que ser previsível num contexto (ambiente) imprevisível, como o de uma partida de futsal, representa uma enorme perda individual e coletiva.
A fim de despertar o interesse dos meus alunos para esse tema, o incluí no conteúdo programático da disciplina pedagogia do esporte. A primeira coisa que a gente aprende ao ler sobre isso é que a criatividade é algo que se adquire. A criatividade não vem inscrita nos nossos genes. O que vem é a capacidade (o potencial) de desenvolvê-la. Trata-se de algo muito promissor, pois se pode exercitá-la, promovê-la, treiná-la.
Em um dos textos estudados, aprendemos que ser criativo exige uma vivência ampla de experiências. A criatividade, neste sentido, estaria ancorada na diversidade. O raciocínio pedagógico é simples e o efeito tremendo: o enfrentamento de situações diversificadas ensinaria a criança a responder de maneiras distintas. Escreve o autor que “Cada situação dessas será responsável pela abertura de um grande número de possibilidades, sendo que cada possibilidade dessas, quando experimentada, poderá abrir tantas outras (FREIRE, 2002, p. 374)”. Portanto, quanto mais colocarmos a criança sob desafios e situações motivadoras, isto é, quanto mais nossa pedagogia for interessante e contemplar variedade, mais recursos ela desenvolverá para jogar futsal. O treino deveria abrir possibilidades no lugar de fechá-las.
“Ninguém será criativo se não experimentar diversidade. É preciso adquirir os recursos para resolver os problemas variados que o jogo apresenta. A sua pedagogia pode e precisa dar conta disso”.
Os recursos produzidos pelas crianças que enfrentam desafios constituem-se ferramentas (esquemas) para encarar novos e inusitados problemas. É um ciclo: desafios → recursos → desafios maiores → mais recursos → novos desafios. Isso explicaria, por exemplo, a diferença entre um craque e um jogador mediano. O craque, cheio de recursos, porque vivenciou diversidade, tem sempre algo novo a apresentar. O jogador mediano, de recursos modestos, porque vivenciou pouca coisa, invariavelmente enfrenta os problemas com respostas esperadas e com dificuldade.
Para o autor, o meio para fomentar jogadores criativos, capazes de nos presentear com arte, de nos surpreender, são as práticas de jogo. Estas entrariam no lugar das rotinas exaustivas de treino, como habitualmente (e infelizmente) encontramos nos treinos de crianças e jovens. Portanto, sem jogo, sem arte.
Outro ponto levantado pelo autor é que as crianças, jogando, aprendem a integrar e a aproximar pensamento e ação. Aprendem a diminuir a distância entre suas intenções (pensamentos) e ações (gestos) ou entre estes e aqueles. Logo, sem jogo, sem rapidez e inteligência para decidir/agir e, por isso, sem bom nível de desempenho.
Por último, ninguém será criativo se não experimentar diversidade. É preciso adquirir os recursos para resolver os problemas variados que o jogo apresenta. A sua pedagogia pode e precisa dar conta disso.
Para quem quiser estudar o texto ao qual me referi, anote a referência:
FREIRE J.B. Questões psicológicas do esporte. In: MOREIRA, W, SIMÕES, R (orgs.). Esporte como fator de qualidade de vida. Piracicaba, Editora Unimep, 2002, p.363-377.
ARTIGO X
Por uma educação em valores
Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
Discuto com os meus alunos do curso de Esporte, na disciplina Futsal, alguns procedimentos que considero essenciais de serem aplicados pelos treinadores de crianças. Entre as condutas do treinador quando das sessões de treino, estudamos a de educar para a autonomia moral. Trata-se da educação da atitude, uma vez que a questão central da moralidade humana é “Como devo agir?”.
Ora, esse é um tema incomum em se tratando do treinamento infantil, quando não desprezado. Os livros que ensinam a treinar crianças familiarizam os acadêmicos com outros temas, como o treinamento das capacidades físicas, as diversas características do desenvolvimento infantil, a aprendizagem dos movimentos, as etapas (ou estágios) do treinamento, os meios e métodos de treino etc. Isso, certamente, é relevante para um treinador de crianças. No entanto, considero igualmente importante a educação sócio-moral.
Adentrar uma dimensão sensível e oculta como esta e pautar o treino numa educação em valores, sem cair na armadilha do moralismo, demanda um conjunto mínimo de conhecimentos, isto é, exige um ponto de partida. O autor chave para isso, no meu entendimento, é Jean Piaget. Foi estudando-o, quando do mestrado em educação física, que aprendi o método que se deve aplicar para que as crianças desenvolvam, ou ainda melhor, construam autonomia.
A fórmula piagetiana é simples: “Somente a cooperação leva à autonomia”. Por quê? Pelo fato de o conceito de autonomia moral, em Piaget, incluir a atitude de considerar o próximo quando se toma uma decisão. Uma autora brasileira que muito contribui para esse tema é Telma Pileggi Vinha. Lê-se no seu livro “O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista”, que “Autonomia não é o mesmo que individualismo, ou liberdade para fazer o que se quer; significa coordenar os diferentes fatores relevantes, para decidir agir da melhor maneira para todos os envolvidos (p.19)”. Que ótimo conceito de autonomia! Equivale a dizer que o outro com o qual se convive não deve ser ferido quando decidimos algo. É preciso, portanto, aprender a considerá-lo, a praticar reciprocidade. Por esse motivo, o método para aprender autonomia passa, obrigatoriamente, pela co-operação, pelo atuar junto, pelas trocas, pelo diálogo. Caso contrário, como reconhecer o meu colega e o seu valor na relação? Como desenvolver respeito mútuo?
Bem, a essa altura do texto, você poderia perguntar: “O que o treinador de crianças esportistas tem a ver com isso?”. Ora, tudo, na medida em que é ele quem cria o ambiente no qual será possível aprender cooperação, que é o que levará à autonomia.
Se você compreendeu o que eu disse, deve ter sacado que a autonomia moral resulta, então, da qualidade das relações interindividuais estabelecidas no treino. Logo não fica difícil deduzir que o treinador precisa aprender a criar um ambiente de treino cooperativo, no qual as crianças, sempre que possível, sejam levadas a dialogar, a refletir, a se reunir para decidir algo, a opinar. Se o treinador não se permitir isso, temendo, erroneamente, perder sua autoridade, não permitirá que suas crianças desenvolvam uma moral (uma ética) autônoma.
Para finalizar, quero, discutindo um tema dessa natureza, por um lado, combater a idéia simplista e reducionista de que os treinadores de crianças devem se dedicar, sobretudo, a prepará-las esportivamente para etapas futuras de treinamento e de que nada têm a ver com a educação da atitude infantil. Isso chega a ser grosseiro. Treinadores não são tecnocratas! Às crianças precisam ser dadas oportunidades reais de se desenvolverem sócio-moralmente. Por outro lado, quero sensibilizar meus alunos a serem treinadores de gente, a gostarem mais de gente do que de estatísticas, mais de gente do que de preparação física, técnica, tática, artigos científicos. Anseio que eles não percam a oportunidade singular de, ao ensinarem esporte, praticarem educação.
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