domingo, 2 de janeiro de 2011

ARTIGO IV

Publicado em 04/07/2009 por medinafutebol
A falta de indignação impede modificações
É comum o futebol ser entendido como um fenômeno que favorece o processo educacional, cultural e de conquista da saúde de um povo. Contrapondo a este entendimento podemos observar também que ele pode ser expressão de todas as mazelas presentes na sociedade.
Este esporte pode ser privilegiado instrumento de educação, mas pode ser também exemplo de mau comportamento. Pode ser expressão de cultura, como pode ser a mais clara representação de violência, agressividade e egoísmo. Pode significar caminho à saúde, como também uma forma de utilização de drogas em busca indiscriminada da alta performance.
O esporte, e em particular o futebol, não é bom nem ruim, por si só. Ele apenas representa aquilo que somos com nossas virtudes e defeitos.
Recentemente temos visto manifestações que comprovam este paradoxo representado pelo futebol. O racismo é um exemplo bem acabado disso.
Seja no Brasil, na Arábia Saudita, ou em países considerados mais desenvolvidos como Espanha, Alemanha e Itália as manifestações racistas são observadas com bastante frequência, mesmo em pleno século 21.
Tais fatos, indiscutivelmente intoleráveis, sempre que visiveis são denunciados pela imprensa, pelo menos nos países mais livres, e provocam reações que permitem reflexões, muitas vezes, bastante instrutivas.
Por outro lado, entretanto, na maioria das vezes estas manifestações racistas são expressas em círculos tão fechados e restritos que não possibilitam o debate, a crítica e o repúdio no sentido de sua superação.
Fica apenas aquele sentimento de impotência e até de certa conivência na medida em que entendemos algumas dessas colocações e atitudes como simples brincadeiras inofensivas e que não devem ser levadas muito a sério.
E uma vez que tais fatos não sejam capazes de provocar indignação, também não poderão provocar qualquer modificação neste estado de coisas.  
João Paulo S. Medina

ARTIGO XIII

Publicado em 09/05/2009 por medinafutebol
Em busca de uma abordagem crítica
 Em um outro texto publicado neste blog (*) comentei que o futebol nem sempre é sinônimo de saúde, como muitos imaginam.  Sempre que abordo este assunto, as pessoas parecem ficar surpresas com este meu ponto de vista sobre o futebol, esporte que, sem dúvida, é uma das maiores manifestações culturais do século 20 e nada indica que não será assim, também neste século 21.
Muitas pessoas me questionam. “Medina como você, sendo professor e trabalhando no futebol há tanto tempo, pode falar mal do futebol?”
Penso que ter um olhar crítico sobre o futebol não significa necessariamente falar mal dele.  Pelo contrário, toda visão crítica pode contribuir mais para a valorização das práticas esportivas, do que uma visão ufanista ou de senso comum.
Defendo que precisamos ter a capacidade para aproveitar o enorme potencial do futebol, para realmente assegurar a promoção da saúde, educação e cultura.
Se o esporte em geral, e o futebol em particular, fosse algo bom por si só, que dispensasse a necessária intervenção competente, positiva e pró-ativa de seus agentes, não veríamos à todo momento exemplos de atletas envolvidos em drogas, atos de violência e corrupção que se repetem dentro e fora dos campos.
Cabe, portanto, àqueles que são os atores responsáveis pelas práticas esportivas, ou seja, treinadores, atletas, líderes comunitários, dirigentes, terem sempre em mente os valores que devem permear o esporte:  solidariedade, cooperação, busca de superação dos limites, constante aperfeiçoamento, o espírito democrático,  respeito aos nossos oponentes etc.
Com uma visão crítica que dê mais clareza quanto à forma em que as relações sociais se dão no interior das atividades lúdicas, educativas e competitivas, talvez, possamos realmente entender o esporte, e em especial o futebol, como um privilegiado instrumento que auxilia o desenvolvimento do ser humano de uma forma geral.

(*) Futebol não é sinônimo de educação, saúde ou cultura
 João Paulo S. Medina

ARTIGO XII

  Publicado em 25/04/2009 por medinafutebol
Uma reflexão sobre os valores dos “selvagens” e dos “civilizados”

  Acompanhando os acontecimentos no mundo e no Brasil, imagino como poderíamos medir o grau de desenvolvimento que a humanidade atingiu já em pleno século 21. E quando falo em desenvolvimento, refiro-me não apenas ao processo de acumulação de riquezas materiais, mas às possibilidades de ascensão das pessoas de uma forma ampla, nos mais variados aspectos.Somos surpreendidos a cada instante com escândalos de toda ordem, que nos fazem questionar se vivemos, realmente, numa sociedade civilizada. 
  Para aumentar essas dúvidas basta vermos, também, o que acontece no mundo do futebol, onde a busca pela vitória, vantagens pessoais e institucionais, muitas vezes, atropelam qualquer apelo que realmente justifique tudo aquilo que entendemos como civilizado.
  Esta reflexão me trás à mente uma experiência muito interessante, contada há anos por um antropólogo, sobre o comportamento de um povo selvagem. Disse ele que certa vez visitou uma tribo no Mato Grosso, que nunca teve contato com a cultura civilizada, a fim de estudá-la.

  Ao pesquisar aquela população indígena, buscando entender seus relacionamentos, ele e seu grupo aproveitaram para ensinar algumas práticas de nossa cultura, entre elas o futebol. Os índios gostaram tanto do jogo que começaram a praticá-lo diariamente. 

  Mas um fato chamou muito a atenção dos antropólogos. Como os índios aprenderam que o grande objetivo da competição era a marcação do gol, quando isto acontecia, de um lado ou de outro, os dois times comemoravam entre si, indistintamente. Afinal alguém tinha conseguido atingir a meta e, portanto, cabia uma celebração coletiva que dispensava o conceito de vencedores e perdedores.

  Talvez este modelo “selvagem” de ver o futebol não seja o ideal a ser seguido por nós “civilizados”, mas com certeza pode nos inspirar a colocar alguns limites nas nossas ambições, muitas vezes exageradas, para não dizer doentias. 

João Paulo S. Medina

sábado, 1 de janeiro de 2011

ARTIGO XI

Diversidade e criatividade
Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
     Criatividade tem a ver com inventividade. Seria, então, a capacidade que se tem de inventar frente a um problema; de dar uma resposta inesperada e incomum. O esporte é muito exigente quanto a isso. Sobretudo os coletivos. Há muitas situações-problema a enfrentar. Não ser criativo, portanto, constituir-se-á, sempre, num empecilho para a excelência no jogar. O fato é que ser previsível num contexto (ambiente) imprevisível, como o de uma partida de futsal, representa uma enorme perda individual e coletiva.
      A fim de despertar o interesse dos meus alunos para esse tema, o incluí no conteúdo programático da disciplina pedagogia do esporte. A primeira coisa que a gente aprende ao ler sobre isso é que a criatividade é algo que se adquire. A criatividade não vem inscrita nos nossos genes. O que vem é a capacidade (o potencial) de desenvolvê-la. Trata-se de algo muito promissor, pois se pode exercitá-la, promovê-la, treiná-la.
      Em um dos textos estudados, aprendemos que ser criativo exige uma vivência ampla de experiências. A criatividade, neste sentido, estaria ancorada na diversidade. O raciocínio pedagógico é simples e o efeito tremendo: o enfrentamento de situações diversificadas ensinaria a criança a responder de maneiras distintas. Escreve o autor que “Cada situação dessas será responsável pela abertura de um grande número de possibilidades, sendo que cada possibilidade dessas, quando experimentada, poderá abrir tantas outras (FREIRE, 2002, p. 374)”. Portanto, quanto mais colocarmos a criança sob desafios e situações motivadoras, isto é, quanto mais nossa pedagogia for interessante e contemplar variedade, mais recursos ela desenvolverá para jogar futsal. O treino deveria abrir possibilidades no lugar de fechá-las.
“Ninguém será criativo se não experimentar diversidade. É preciso adquirir os recursos para resolver os problemas variados que o jogo apresenta. A sua pedagogia pode e precisa dar conta disso”.
     Os recursos produzidos pelas crianças que enfrentam desafios constituem-se ferramentas (esquemas) para encarar novos e inusitados problemas. É um ciclo: desafios → recursos → desafios maiores → mais recursos → novos desafios. Isso explicaria, por exemplo, a diferença entre um craque e um jogador mediano. O craque, cheio de recursos, porque vivenciou diversidade, tem sempre algo novo a apresentar. O jogador mediano, de recursos modestos, porque vivenciou pouca coisa, invariavelmente enfrenta os problemas com respostas esperadas e com dificuldade.
     Para o autor, o meio para fomentar jogadores criativos, capazes de nos presentear com arte, de nos surpreender, são as práticas de jogo. Estas entrariam no lugar das rotinas exaustivas de treino, como habitualmente (e infelizmente) encontramos nos treinos de crianças e jovens. Portanto, sem jogo, sem arte.
     Outro ponto levantado pelo autor é que as crianças, jogando, aprendem a integrar e a aproximar pensamento e ação. Aprendem a diminuir a distância entre suas intenções (pensamentos) e ações (gestos) ou entre estes e aqueles. Logo, sem jogo, sem rapidez e inteligência para decidir/agir e, por isso, sem bom nível de desempenho.
     Por último, ninguém será criativo se não experimentar diversidade. É preciso adquirir os recursos para resolver os problemas variados que o jogo apresenta. A sua pedagogia pode e precisa dar conta disso.
     Para quem quiser estudar o texto ao qual me referi, anote a referência:
     FREIRE J.B. Questões psicológicas do esporte. In: MOREIRA, W, SIMÕES, R (orgs.). Esporte como fator de qualidade de vida. Piracicaba, Editora Unimep, 2002, p.363-377.

ARTIGO X

Por uma educação em valores

Imagem do autor do artigo
Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
  Discuto com os meus alunos do curso de Esporte, na disciplina Futsal, alguns procedimentos que considero essenciais de serem aplicados pelos treinadores de crianças. Entre as condutas do treinador quando das sessões de treino, estudamos a de educar para a autonomia moral. Trata-se da educação da atitude, uma vez que a questão central da moralidade humana é “Como devo agir?”.
  Ora, esse é um tema incomum em se tratando do treinamento infantil, quando não desprezado. Os livros que ensinam a treinar crianças familiarizam os acadêmicos com outros temas, como o treinamento das capacidades físicas, as diversas características do desenvolvimento infantil, a aprendizagem dos movimentos, as etapas (ou estágios) do treinamento, os meios e métodos de treino etc. Isso, certamente, é relevante para um treinador de crianças. No entanto, considero igualmente importante a educação sócio-moral.
  Adentrar uma dimensão sensível e oculta como esta e pautar o treino numa educação em valores, sem cair na armadilha do moralismo, demanda um conjunto mínimo de conhecimentos, isto é, exige um ponto de partida. O autor chave para isso, no meu entendimento, é Jean Piaget. Foi estudando-o, quando do mestrado em educação física, que aprendi o método que se deve aplicar para que as crianças desenvolvam, ou ainda melhor, construam autonomia.
  A fórmula piagetiana é simples: “Somente a cooperação leva à autonomia”. Por quê? Pelo fato de o conceito de autonomia moral, em Piaget, incluir a atitude de considerar o próximo quando se toma uma decisão. Uma autora brasileira que muito contribui para esse tema é Telma Pileggi Vinha. Lê-se no seu livro “O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista”, que “Autonomia não é o mesmo que individualismo, ou liberdade para fazer o que se quer; significa coordenar os diferentes fatores relevantes, para decidir agir da melhor maneira para todos os envolvidos (p.19)”. Que ótimo conceito de autonomia! Equivale a dizer que o outro com o qual se convive não deve ser ferido quando decidimos algo. É preciso, portanto, aprender a considerá-lo, a praticar reciprocidade. Por esse motivo, o método para aprender autonomia passa, obrigatoriamente, pela co-operação, pelo atuar junto, pelas trocas, pelo diálogo. Caso contrário, como reconhecer o meu colega e o seu valor na relação? Como desenvolver respeito mútuo?
  Bem, a essa altura do texto, você poderia perguntar: “O que o treinador de crianças esportistas tem a ver com isso?”. Ora, tudo, na medida em que é ele quem cria o ambiente no qual será possível aprender cooperação, que é o que levará à autonomia.
  Se você compreendeu o que eu disse, deve ter sacado que a autonomia moral resulta, então, da qualidade das relações interindividuais estabelecidas no treino. Logo não fica difícil deduzir que o treinador precisa aprender a criar um ambiente de treino cooperativo, no qual as crianças, sempre que possível, sejam levadas a dialogar, a refletir, a se reunir para decidir algo, a opinar. Se o treinador não se permitir isso, temendo, erroneamente, perder sua autoridade, não permitirá que suas crianças desenvolvam uma moral (uma ética) autônoma.
  Para finalizar, quero, discutindo um tema dessa natureza, por um lado, combater a idéia simplista e reducionista de que os treinadores de crianças devem se dedicar, sobretudo, a prepará-las esportivamente para etapas futuras de treinamento e de que nada têm a ver com a educação da atitude infantil. Isso chega a ser grosseiro. Treinadores não são tecnocratas! Às crianças precisam ser dadas oportunidades reais de se desenvolverem sócio-moralmente. Por outro lado, quero sensibilizar meus alunos a serem treinadores de gente, a gostarem mais de gente do que de estatísticas, mais de gente do que de preparação física, técnica, tática, artigos científicos. Anseio que eles não percam a oportunidade singular de, ao ensinarem esporte, praticarem educação.