Ensinar e aprender
Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
Professores de esporte são eminentemente “práticos”. No final das contas, temos mesmo é de dar aulas. Ao dá-las manifestamos o que sabemos. Intervimos. Em alguns casos, não temos consciência do que fazemos; não compreendemos o nosso fazer. Isso não é bom. Denota fragilidade.
Ninguém será bom professor de esporte sem uma prática consistente. O que daria consistência para as nossas aulas? Penso que, entre outras coisas, experiência prática, conhecimento teórico, sensibilidade e compromisso social. É por isso que professor, além de dar aulas, deve estudar. É por isso que além de estudar e dar aulas deve humanizar-se. É por isso que além de estudar, dar aulas e humanizar-se, deve humanizar.
Estudar é dever e não concessão de professor. O conhecimento é necessário na medida em que fortalece e alimenta a prática; volta-se para ela; organiza-a; livra-a das suas imperfeições; acrescenta-lhe uma bem-vinda jovialidade. O conhecimento é a nossa “lente de aumento”. Com ela enxergamos melhor o que praticamos; corrigimos nossa miopia, ainda que não a erradiquemos. Seremos sempre, em dada medida, míopes.
“Sem alunos, sem o hábito de estudar, sem humor, compaixão e humildade os professores se tornam cada vez mais cegos, presunçosos e menos perspicazes”.
“Sem alunos, sem o hábito de estudar, sem humor, compaixão e humildade os professores se tornam cada vez mais cegos, presunçosos e menos perspicazes”.
Professores têm de ser amantes de livros. Os textos lhe excitarão o pensamento e a imaginação. No plano mental, remeter-se-ão à sua prática e a reconsiderarão sob novas perspectivas. É preciso se distanciar da prática para pensá-la. A suspensão da realidade elevará a capacidade de o professor inovar. Preso apenas à sua prática, ainda que muito aprenda, o professor se enfraquecerá; tornar-se-á refém do pouco que sabe. Extenuado, sem imaginação, não dará boas aulas. Isso tende a dificultar e frustrar o aprendizado do aluno. O aluno precisa da inquietude do professor.
A intimidade com os livros emancipará o professor; dar-lhe-á autonomia. Repito: bons professores têm experiência prática, estudam, são sensíveis e comprometidos socialmente. Sem alunos, sem o hábito de estudar, sem humor, compaixão e humildade os professores se tornam cada vez mais cegos, presunçosos e menos perspicazes. Se forem apenas racionais, não serão bons professores; tampouco se forem apenas práticos, sensíveis ou politizados. Ensinar é uma tarefa trabalhosa. Os meus alunos ratificam dia-a-dia essa assertiva.
E o amor? O professor deveria amar os seus alunos? Sim. Isso significa ter atitudes amorosas, que passa por ouvi-los, desafiá-los, encorajá-los e repreendê-los. Os alunos precisam de professores que os ajudem, por um lado, a estabelecer limites e de outro lado a transgredi-los. O professor precisa desafiar e encorajar o aluno preguiçoso a se dedicar, o individualista a cooperar, o tímido a se expressar, o autoritário a dialogar, o impulsivo a ponderar, o agressivo a se controlar, o medroso a lutar, o desleixado a se organizar, o malcriado a ser elegante.
O ritmo de aprendizado dos alunos é distinto. Cada qual tem uma história de vida e menos ou mais motivos para agir diante das propostas do professor. Todos têm um tempo de aprender. Não é preciso acelerar respostas ao ensinar, mas isso inclui atentar para o que se propõe ao aluno. O aprendizado tem a ver com a complexidade do desafio, pois este mobiliza ou paralisa o aluno.
Por último, diria que os professores deveriam ser gratos aos alunos por o colocarem sob desafios, pois um professor sem aflições, sem problemas e inquietudes, não amadurece, não estuda, não aprende, não se sensibiliza e não se compromete.
Nenhum comentário:
Postar um comentário