Por uma educação em valores
Wilton Carlos de Santana
Discuto com os meus alunos do curso de Esporte, na disciplina Futsal, alguns procedimentos que considero essenciais de serem aplicados pelos treinadores de crianças. Entre as condutas do treinador quando das sessões de treino, estudamos a de educar para a autonomia moral. Trata-se da educação da atitude, uma vez que a questão central da moralidade humana é “Como devo agir?”.
Ora, esse é um tema incomum em se tratando do treinamento infantil, quando não desprezado. Os livros que ensinam a treinar crianças familiarizam os acadêmicos com outros temas, como o treinamento das capacidades físicas, as diversas características do desenvolvimento infantil, a aprendizagem dos movimentos, as etapas (ou estágios) do treinamento, os meios e métodos de treino etc. Isso, certamente, é relevante para um treinador de crianças. No entanto, considero igualmente importante a educação sócio-moral.
Adentrar uma dimensão sensível e oculta como esta e pautar o treino numa educação em valores, sem cair na armadilha do moralismo, demanda um conjunto mínimo de conhecimentos, isto é, exige um ponto de partida. O autor chave para isso, no meu entendimento, é Jean Piaget. Foi estudando-o, quando do mestrado em educação física, que aprendi o método que se deve aplicar para que as crianças desenvolvam, ou ainda melhor, construam autonomia.
A fórmula piagetiana é simples: “Somente a cooperação leva à autonomia”. Por quê? Pelo fato de o conceito de autonomia moral, em Piaget, incluir a atitude de considerar o próximo quando se toma uma decisão. Uma autora brasileira que muito contribui para esse tema é Telma Pileggi Vinha. Lê-se no seu livro “O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista”, que “Autonomia não é o mesmo que individualismo, ou liberdade para fazer o que se quer; significa coordenar os diferentes fatores relevantes, para decidir agir da melhor maneira para todos os envolvidos (p.19)”. Que ótimo conceito de autonomia! Equivale a dizer que o outro com o qual se convive não deve ser ferido quando decidimos algo. É preciso, portanto, aprender a considerá-lo, a praticar reciprocidade. Por esse motivo, o método para aprender autonomia passa, obrigatoriamente, pela co-operação, pelo atuar junto, pelas trocas, pelo diálogo. Caso contrário, como reconhecer o meu colega e o seu valor na relação? Como desenvolver respeito mútuo?
Bem, a essa altura do texto, você poderia perguntar: “O que o treinador de crianças esportistas tem a ver com isso?”. Ora, tudo, na medida em que é ele quem cria o ambiente no qual será possível aprender cooperação, que é o que levará à autonomia.
Se você compreendeu o que eu disse, deve ter sacado que a autonomia moral resulta, então, da qualidade das relações interindividuais estabelecidas no treino. Logo não fica difícil deduzir que o treinador precisa aprender a criar um ambiente de treino cooperativo, no qual as crianças, sempre que possível, sejam levadas a dialogar, a refletir, a se reunir para decidir algo, a opinar. Se o treinador não se permitir isso, temendo, erroneamente, perder sua autoridade, não permitirá que suas crianças desenvolvam uma moral (uma ética) autônoma.
Para finalizar, quero, discutindo um tema dessa natureza, por um lado, combater a idéia simplista e reducionista de que os treinadores de crianças devem se dedicar, sobretudo, a prepará-las esportivamente para etapas futuras de treinamento e de que nada têm a ver com a educação da atitude infantil. Isso chega a ser grosseiro. Treinadores não são tecnocratas! Às crianças precisam ser dadas oportunidades reais de se desenvolverem sócio-moralmente. Por outro lado, quero sensibilizar meus alunos a serem treinadores de gente, a gostarem mais de gente do que de estatísticas, mais de gente do que de preparação física, técnica, tática, artigos científicos. Anseio que eles não percam a oportunidade singular de, ao ensinarem esporte, praticarem educação.
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